16.11.14

A Volta Incompleta de Horácio*



Na última vez em que vi Horácio

me disse que não seria fácil
pois estava decidido a pedir estorno
por todo o mal e prejuízo advindo do eterno retorno


já não aguentava mais as vozes que diziam as mesmas frases
tropeçou demais nas frestas da mesma calçada
decorou a coreografia dos seus dias enfileirados
até mesmo a cor dos carros mal lavados
que passavam enquanto sentava
nos bancos coloridos e tomava seu remédio para gases

bateu no meu ombro
"me deseja sorte, repetir é um erro preguiçoso do destino
se eu voltar, foi porquê não consegui"
não levei a sério
e ele nunca mais passou por aqui




* título inventado por Marcos Chaves

diagnóstico


tenho medo de perder a memória
tenho medo de perder boas chances por mero esquecimento
tenho medo de me perder ao não conseguir lembrar quem eu sou,onde estou, o que quero
no meio dessa tempestade de identidade

tenho a esperança de curar minhas enfermidades
tenho a esperança de acordar na hora certa e não mais queimar meu filme
tenho a esperança de revidar e recuperar minha confiança, minha audácia, minha coragem
no meio dessa tempestade de identidade

sinto segurança em certas habilidades
sinto segurança em meia dúzia de amigos dispersos
sinto segurança por poder contar com um teto, alimento e apoio de familiares
no meio dessa tempestade de identidade


22.10.14

O Luto



o meu sonho te encontrei, você estava tão tranquilo, caminhava distraído,perguntei

o que havia com você? porque andava tão sumido, já que era tão assíduo por aqui

devagar me respondeu

foi você quem não queria as lembranças tão vivas

pois machuca, mas ninguém tem culpa


de alimentar vínculos tão duradouros, imortais

que se arrastam pelos anos, ainda que na ausência

não conforta constatar que vamos para o mesmo lugar

mas acolher a idéia me faz pensar com clareza

por tudo isso, me desculpei

por ter sido agressivo

Não soube lidar com isso direito

mas agora tudo bem

compreendi o que é finito

você foi um grande amigo que perdi

a gente se esbarra por aí

11.6.14

Segredos enterrados em cápsulas 8/12


Na minha coleção de arrependimentos, estampados em alto relevo nas paredes da memória
ostento diversidade, organizada em ordem de lembrança, relevância e incidência

os mais recentes são os mais doloridos, é um pouco mais fácil lidar com os mais antigos
há aqueles que nunca saíram de moda, aqueles que foram desclassificados e não ocupam mais espaço
dá pra ver que alguns serão duradouros e outros temporários
e entender que alguns vão doer que nem um chute quando acidentalmente evocados

como toda e qualquer outra coleção, não tem lá muita utilidade além da própria contemplação
você olha e percebe a história, vê que não tem muito uso, muito espaço
pensa em jogar fora
mas não joga

25.5.14

Campinas - SP

a estrada não tinha curvas e minha alegria era ouvir
suas queixas sobre os preços dos restaurantes na beira da rodovia e via
os apressados passando pela esquerda freiando só pra evitar radares,
estive pensando em alguns lugares, talvez você ache até bobagem
mas aqui perto tem uma cidade onde moram amigos de internet, antigos
um deles já tem até filhos: a raquel e o rodrigo
e nessa época do ano rolam várias festas populares

você encosta no meu ombro
e diz que pode ser, tudo bem
desde que a gente possa parar pra descansar

25.10.13

filmes de times de esporte


Quando eu voltar, eu juro que vai ser diferente.


11.7.13

revanche em junho

Não há muitas vias dentro da vontade de se vingar,
é um ralo que te puxa e você se deixa levar pelo impulso e pelo ego ferido
mas não é todo mundo que se alimenta disso

de maneira que isso não se sustenta com frequência
é reservado aos indivíduos de paciência
deixar isso pra lá

e isso é confundido com fraqueza
enxergam beleza quando pagam com a mesma moeda
eles querem ver a queda dos malfeitores cruéis

e assim alimenta-se o ciclo, um dano em troca do outro
porque certo aborrecimento machuca e deixa marcas
e nem sempre consideram a memória ruim como amiga
que há de atenuar as tensões e fazer o que doía muito, virar apenas um sopro

(...)

pode ficar com o troco

29.5.13

O que é pior?



olhar pra essa tela na esperança de que algo aconteça
ou ir lá fora  perceber que nada acontece?

27.4.13

Diário de bordo



Segunda: absurda e calada, gosto de páo com manteiga
Terça: meias apertadas, telefonema tardio , intuição
Quarta: garafas d'água. Suspiro improvável, incerteza
Quinta: dizer que me importo, almoço gratuito, serenidade.
Sexta: gosto de falsa liberdade
Sábado: árvores frutiferas, roupas confortáveis, soluço
Domingo: leve desesperoo, estar perdido, bolo de nozes

25.4.13

segredos enterrados em cápsulas 7/12



Seu eu fosse bonito
seria mais confiante, acredito.
sustentaria um porte decidido, em um instante
me candidataria a um cargo importante

Se eu fosse bonito
estrelaria seu filme favorito
me sentiria menos rejeitado
e tomaria posse de tudo que me foi negado

se eu fosse bonito
não gastaria toda uma vida desenvolvendo tantas habilidades
e poderia ver com calma os detalhes dessa cidade
apreciar cada esboço de banalidade
usufruir das bobagens com as quais tanto implico

Se eu fosse bonito
talvez nada me adiantasse
se todos se entregassem
de braços abertos pra me receber
no final das contas eu não queria
ser amparado pela maioria
minha maior fantasia
é ser bonito pra você

Amargo


Quando a ficha cai e você percebe
quase não dá pra acreditar

todos os males que você sustentou por tanto tempo
toda a energia gasta em empreendimentos mal sucedidos
toda a distração que julgava necessária para sobrevivência e bem estar
você aprendeu bastante com tudo isso
mas dói lembrar e é perigoso esquecer

corta os laços, aperta o botão, quebra as correntes e vai embora antes que seja tarde.

13.3.13

A descoberta



Não foi em vão
andar em círculos
passar horas olhando, com a a mão no queixo, pensativo
reclamar à beça
ficar com dor de cabeça
imaginar as múltiplas possibilidades sem dar nenhum passo
Não foi em vão, eu acho

Quando repentinamente me deparei com as respostas
vi que não tinham a ver com o que eu imaginava
mas serviram, feito as luvas de lã no frio que não existe mais
feito as balas de hortelã vendidas em bares quase falidos
tão útil quanto a moeda perdida no bolso em momento propício
ou um chute apurado em uma questão muito difícil
eu ainda me importo demais
e ainda invento meu próprio nome
um passo para frente, um passo para trás
e agora já não sinto fome


11.3.13

segredos enterrados em cápsulas 6/12


Não tive medo das tendências, mas achava desconfortável
como ser levado pelo rio, em um bote sem remos
ás vezes, querer pertencer era inevitável



19.1.13

Prezado Eu do passado,




   Trago notícias de um futuro próximo, sem nenhuma intenção de mudar o curso das coisas.
   Eu entendo que nesse exato momento, você está arquitetando uma maneira de obter meios para realizar seus sonhos, pensando em caminhos possíveis, pensando no tipo de sujeito que você precisa se tornar para ter tudo o que você quer. Nós dois sabemos que o plano sempre foi se tornar um super herói para si mesmo, dar cabo dessas fraquezas tão aparentes e se possível, construir um sóton e morar nele. Sei também que você queria muito ir para outros países, falar outros idiomas e aprender a desenhar de forma decente.

Confesso que a idéia do sóton é ótima, mas no momento, a maior preocupação tem sido as goteiras.
Seria uma boa ter super poderes, mas simples poderes já nos ajudariam de uma forma  certeira.
Nossos traços na folha ainda são tortos, poderia considerar ser amador?
Aprendemos até agora 1 idioma e meio, mas olha pelo lado bom, você já se formou.
Suas fraquezas são respeitadas, você sofreu muito por se cobrar tanto, o processo curativo foi lento.
Aquele seriado de 6 temporadas teve um final terrível, para de assistir enquanto há tempo.
Um conselho? Não aceite conselhos, exceto esse dizendo para não aceitar os demais
Vendo daqui, foi adequado ser manso, rosnar em breves momentos, entender que é contraditória a idéia de paz.

Só toma cuidado pra não virar ilha, os brinquedos eletrônicos ainda não vem com pilhas.

ID


Antes que o metabolismo lentifique
lhe peço que por mais uma vez, se indentifique
quem é essa pessoa por debaixo dos escombros?
Antes você se comovia, mas agora dá de ombros




28.8.12

quem dera

Sonho com um mundo onde todas as farmácias tenham balança
onde o pão nunca mais seja vendido por quilo
onde suspiros sejam mais frequentes que soluços
e o ócio seja uma dádiva, não uma ameaça




22.5.12

Breve

Enquanto você espera
a página carregar
o ônibus chegar
a porta se abrir
o feriado chegar
seu nome ser chamado pelo médico
a alegria se repetir
a dívida se extinguir
a paixão te acertar no meio da testa como um raio

No que você pensa?
No que você pensa enquanto nada disso acontece?

12.3.12

Drômbado

acabaram aqui as dúvidas, ainda assim com tropeços sigo a esmo com a necessidade de expor. Sim, de nada adiantaria sofrer pelo perdido, o incrível amigo que se cristalizou, tão fraco e vulnerável que dormiria em qualquer lugar.
É triste sentar aqui e observar a vida passar.

Ainda escuto suas vozes no fundo, o sorriso tempestuoso da cobrança posterior
já não sinto dor e isso é um absurdo
como eu me iludo com leis de falso pudor

8.3.12

O sonho mais longo

Eu estava em um zoológico e flutuava sem esforço por cima dos bancos. Fui atraído por um som curioso que vinha de dentro de um laboratório. Estavam consertando a máquina de acabar com angústias e eu era o terceiro da fila. Certo de ser uma cobaia, pretegi meus joelhos e meus cotovelos. Quando chegou a minha vez, senti um gosto metálico no canto da língua, meus pés formigaram um pouco e minha alma ficou dormente. eu não sentia mais nada, não abria sorrisos nem me zangava. Pedi meu dinheiro de volta, mas não conseguia parecer decidido, não fui levado a sério. Na saída, esbarrei com uma garota preocupada com as horas,que me avisou do cadarços desamarrado e perguntou para onde eu estava indo. Eu disse que estava perdido, que precisava de uma função nesse mundo. Ela disse que eu poderia ser qualquer coisa. Eu disse que qualquer coisa não servia e me despedi. Começou a chover e eu descobri que o efeito da máquina é anulado com água, pois eu abri um sorriso, dos grandes. "pelo menos não é angústia", pensei. Eu joguei pipoca para os animais, mas eles não estavam interessados, se esconder da chuva era mais importante. Eu fiquei preocupado com os equipamentos eletrônicos no meu bolso, desejei ser impermeável em certa medida, para água e para angústia.

22.2.12

segredos enterrados em cápsulas 5/12

Eu estive caindo por muito tempo e aperfeiçoei esse movimento
mas ao pensar que nunca mais seria derrubado descobri que há novas formas de se machucar.
às vezes é um tombo, as vezes uma câimbra, as vezes um olhar.