27.4.13

Diário de bordo



Segunda: absurda e calada, gosto de páo com manteiga
Terça: meias apertadas, telefonema tardio , intuição
Quarta: garafas d'água. Suspiro improvável, incerteza
Quinta: dizer que me importo, almoço gratuito, serenidade.
Sexta: gosto de falsa liberdade
Sábado: árvores frutiferas, roupas confortáveis, soluço
Domingo: leve desesperoo, estar perdido, bolo de nozes

25.4.13

segredos enterrados em cápsulas 7/12



Seu eu fosse bonito
seria mais confiante, acredito.
sustentaria um porte decidido, em um instante
me candidataria a um cargo importante

Se eu fosse bonito
estrelaria seu filme favorito
me sentiria menos rejeitado
e tomaria posse de tudo que me foi negado

se eu fosse bonito
não gastaria toda uma vida desenvolvendo tantas habilidades
e poderia ver com calma os detalhes dessa cidade
apreciar cada esboço de banalidade
usufruir das bobagens com as quais tanto implico

Se eu fosse bonito
talvez nada me adiantasse
se todos se entregassem
de braços abertos pra me receber
no final das contas eu não queria
ser amparado pela maioria
minha maior fantasia
é ser bonito pra você

Amargo


Quando a ficha cai e você percebe
quase não dá pra acreditar

todos os males que você sustentou por tanto tempo
toda a energia gasta em empreendimentos mal sucedidos
toda a distração que julgava necessária para sobrevivência e bem estar
você aprendeu bastante com tudo isso
mas dói lembrar e é perigoso esquecer

corta os laços, aperta o botão, quebra as correntes e vai embora antes que seja tarde.

13.3.13

A descoberta



Não foi em vão
andar em círculos
passar horas olhando, com a a mão no queixo, pensativo
reclamar à beça
ficar com dor de cabeça
imaginar as múltiplas possibilidades sem dar nenhum passo
Não foi em vão, eu acho

Quando repentinamente me deparei com as respostas
vi que não tinham a ver com o que eu imaginava
mas serviram, feito as luvas de lã no frio que não existe mais
feito as balas de hortelã vendidas em bares quase falidos
tão útil quanto a moeda perdida no bolso em momento propício
ou um chute apurado em uma questão muito difícil
eu ainda me importo demais
e ainda invento meu próprio nome
um passo para frente, um passo para trás
e agora já não sinto fome


11.3.13

segredos enterrados em cápsulas 6/12


Não tive medo das tendências, mas achava desconfortável
como ser levado pelo rio, em um bote sem remos
ás vezes, querer pertencer era inevitável



19.1.13

Prezado Eu do passado,




   Trago notícias de um futuro próximo, sem nenhuma intenção de mudar o curso das coisas.
   Eu entendo que nesse exato momento, você está arquitetando uma maneira de obter meios para realizar seus sonhos, pensando em caminhos possíveis, pensando no tipo de sujeito que você precisa se tornar para ter tudo o que você quer. Nós dois sabemos que o plano sempre foi se tornar um super herói para si mesmo, dar cabo dessas fraquezas tão aparentes e se possível, construir um sóton e morar nele. Sei também que você queria muito ir para outros países, falar outros idiomas e aprender a desenhar de forma decente.

Confesso que a idéia do sóton é ótima, mas no momento, a maior preocupação tem sido as goteiras.
Seria uma boa ter super poderes, mas simples poderes já nos ajudariam de uma forma  certeira.
Nossos traços na folha ainda são tortos, poderia considerar ser amador?
Aprendemos até agora 1 idioma e meio, mas olha pelo lado bom, você já se formou.
Suas fraquezas são respeitadas, você sofreu muito por se cobrar tanto, o processo curativo foi lento.
Aquele seriado de 6 temporadas teve um final terrível, para de assistir enquanto há tempo.
Um conselho? Não aceite conselhos, exceto esse dizendo para não aceitar os demais
Vendo daqui, foi adequado ser manso, rosnar em breves momentos, entender que é contraditória a idéia de paz.

Só toma cuidado pra não virar ilha, os brinquedos eletrônicos ainda não vem com pilhas.

ID


Antes que o metabolismo lentifique
lhe peço que por mais uma vez, se indentifique
quem é essa pessoa por debaixo dos escombros?
Antes você se comovia, mas agora dá de ombros




28.8.12

quem dera

Sonho com um mundo onde todas as farmácias tenham balança
onde o pão nunca mais seja vendido por quilo
onde suspiros sejam mais frequentes que soluços
e o ócio seja uma dádiva, não uma ameaça




22.5.12

Breve

Enquanto você espera
a página carregar
o ônibus chegar
a porta se abrir
o feriado chegar
seu nome ser chamado pelo médico
a alegria se repetir
a dívida se extinguir
a paixão te acertar no meio da testa como um raio

No que você pensa?
No que você pensa enquanto nada disso acontece?

12.3.12

Drômbado

acabaram aqui as dúvidas, ainda assim com tropeços sigo a esmo com a necessidade de expor. Sim, de nada adiantaria sofrer pelo perdido, o incrível amigo que se cristalizou, tão fraco e vulnerável que dormiria em qualquer lugar.
É triste sentar aqui e observar a vida passar.

Ainda escuto suas vozes no fundo, o sorriso tempestuoso da cobrança posterior
já não sinto dor e isso é um absurdo
como eu me iludo com leis de falso pudor

8.3.12

O sonho mais longo

Eu estava em um zoológico e flutuava sem esforço por cima dos bancos. Fui atraído por um som curioso que vinha de dentro de um laboratório. Estavam consertando a máquina de acabar com angústias e eu era o terceiro da fila. Certo de ser uma cobaia, pretegi meus joelhos e meus cotovelos. Quando chegou a minha vez, senti um gosto metálico no canto da língua, meus pés formigaram um pouco e minha alma ficou dormente. eu não sentia mais nada, não abria sorrisos nem me zangava. Pedi meu dinheiro de volta, mas não conseguia parecer decidido, não fui levado a sério. Na saída, esbarrei com uma garota preocupada com as horas,que me avisou do cadarços desamarrado e perguntou para onde eu estava indo. Eu disse que estava perdido, que precisava de uma função nesse mundo. Ela disse que eu poderia ser qualquer coisa. Eu disse que qualquer coisa não servia e me despedi. Começou a chover e eu descobri que o efeito da máquina é anulado com água, pois eu abri um sorriso, dos grandes. "pelo menos não é angústia", pensei. Eu joguei pipoca para os animais, mas eles não estavam interessados, se esconder da chuva era mais importante. Eu fiquei preocupado com os equipamentos eletrônicos no meu bolso, desejei ser impermeável em certa medida, para água e para angústia.

22.2.12

segredos enterrados em cápsulas 5/12

Eu estive caindo por muito tempo e aperfeiçoei esse movimento
mas ao pensar que nunca mais seria derrubado descobri que há novas formas de se machucar.
às vezes é um tombo, as vezes uma câimbra, as vezes um olhar.

coleção 10/10

amável
feito a nostalgia quente
sobre tua tez dormente
inigualável imensidão por onde o náufrago veleja
temo por ser tão carente
mas torna-se evidente
a inevitável rendição
neve sabor cereja.

coleção 9/10

A sentença é interrompida por um silêncio imenso
Quando o coração está denso, a respiração fraqueja
sorria pra mim além desses muros, eu penso
neve sabor cereja

18.2.12

Cartografia

Na última vez que te vi, fingi não ser afetado e mantive meus globos oculares no lugar
evitei movimentos bruscos, medi cada palavra, ainda que isso me custasse caro

Não foi nem um pouco funcional, tudo se despedaçou como se fosse de isopor fino
foi como tentar me defender de um míssil teleguiado com um guarda chuva de 1,99

é como se eu nunca estivesse preparado
como se eu nunca fosse adequado
como um osso deslocado
ocupando o assento errado do ônibus
mas eu ainda quero
e acho que além de mim não há bloqueios tão poderosos
existe o acaso, as vantagens e desvantagens
mas,
nada é tão forte quanto estar diante de mim mesmo
e ser o responsável pelos ciclos enfadonhos
roda roda roda
Eu volto pro começo mais experiente, compreendendo melhor as coisas
roda roda roda
Acredito ter encontrado as falhas do processo, talvez agora a coisa ande
roda roda roda
acho que estava enganado.

31.1.12

Rando

vivemos num mundo onde é crime imaginar
e acham suspeito quem não consegue chegar lá
e falta coragem para simplesmente voltar
e falta um pouco de bom senso de parar

e então se convencer
que é tão inútil pertencer

vivemos num mundo onde é difícil a decisão
e é obrigatório dizer sim ou dizer não
não se tem direito de simplesmente estagnar
eu quero o direito de poder um momento pensar
que é fácil descobrir que eu simplesmente não quero ir

se pensar direito não existe uma decisão
sem que leve em conta a explosiva emoção
vivemos de simples pretensões complexas
eu quero a mais simples idéia na minha cabeça

que eu possa sustentar
que não venha me prejudicar
que eu temo por sofrer
que eu quero mesmo é não pertencer

13.1.12

fotos com flash

Rasgo-me em pedaços, como uma constelação serena e frágil
pelos teus agrados,naufragando em um oceano trágico
com soluços incuráveis que retornam em dias pares
os afetos, sem teto, incapazes de achar seus lares


Arremessando móveis contra a parede de gesso
Quem sabe um dia, eu cresço

11.1.12

A solução para os pés molhados

Se eu fosse morrer em breve
Deixaria algumas divídas pra essa vida
pois eu havia prometido ser alguém melhor
e ter realizado meia dúzia de proezas

mas você sabe como as coisas funcionam
e como às vezes elas simplesmente não funcionam
e que se respeitar é admitir o que não dá pra ser agora
quem sabe ainda dê tempo

Você faz idéia do quanto eu sinto muito?
E do quanto sinto sua falta?

15.10.11

Medo de Feriados

Um dia quem sabe, eu venha a ser tudo isso que eu não sou
e sentir um certo bem estar
de missão cumprida
de patamar alcançado
de limite superado

Um dia quem sabe, isso tudo que eu tanto quero já não faça mais sentido
fica a torcida para que eu consiga a tempo
pelo menos a metade
ou a metade da metade
dessa pilha de desejos

Pois as vezes eu acordo duvidando de tudo, de todo mundo
perguntando se tem alguma validade, se não estamos presos em nossas vontades
a vida e suas multiplicidades
a pele irritada pela poluição
a água com gosto de cloro
os apertos de mão enfraquecidos
o açucar refinado doce e perigoso
o vento que assobia esperançoso
o mais novo hino nacional

Por favor, dê me um gps para esse labirinto

12.10.11

Ausente

O lençol escapou de uma das diagonais
consertei e imediatamente a outra se soltou
a chuva apareceu por aqui, mas foi tão rápido
mal deu tempo de chegar ao chão e acabou

lá fora, as vozes que não se calam
a ansiedade em reclamar de tudo
o desconforto com a vida no planeta
a dor pela injustiça inevitável
a esperança anêmica

dividem o espaço

com a plenitude
com os risos e comemorações
as banalidades que preenchem os corações
os bons encontros
a falsa sensação de imortalidade na juventude

como você pôde? como eu pude?